Faz parte do ser sonhar. Faz parte do ser viver experiências. Faz parte do ser procurar e encontrar.
De mim, além de tudo isso, faz parte escrever. Faz parte criar. Criar com letras, palavras e frases.



domingo, 20 de fevereiro de 2011

Mãe,

Um dia pegaste em mim, colocaste-me em frente ao espelho e disseste ‘hoje vamos transformar-te numa princesa’.
E fizeste-o. Com toda a atenção, cuidado e minuciosidade, pegaste em cada pedacinho meu e transformaste-o. Colocaste-me um vestido longo – para a comprida jornada que tínhamos pela frente, sapatilhas finas e delicadas – a tua essência, que espero ter conseguido adquirir. Puseste-me no cabelo uma tiara que, incrivelmente, brilhava quase tanto como o teu sorriso. Como o caminho para a tua alma. Encaracolaste-me o cabelo, e com todo o carinho de mãe recomendas-te o casaco. Não sem antes brincar com cores e originalidade, pintando-me a face. Pintando-me o coração.
É engraçado como após tantos anos nunca deixaste de o fazer. De tratar de mim de forma tão ciente, de me amar de forma tão consciente como fizeste nesse momento. De me proteger até dos mais pequenos perigos. E se agora deito uma lágrima ao escrever isto, ela está cheia de emoções, partilhas e bons momentos.
Tu trouxeste-me ao mundo. Mas mais importante que isso, mostraste-me o mundo. Mostraste-me o bom, o mau, o feio e o bonito. Mostraste-me o amor, o carinho, e aquilo que devemos evitar. Ajudaste-me a construir o meu caminho, pedra a pedra, grão a grão; e com aquelas que eram mais pesadas, mais difíceis de suportar, aprendi do que sou capaz; porque tu estiveste lá para me relembrar. Para me apoiar.
É verdade que ao longo desse caminho obstáculos se puseram à minha e à tua frente - sim, pois tenho orgulho em dizer que da minha vida, fazes tu a tua – mas tu estiveste lá e com toda a tua perícia e determinação, ensinaste-me a melhor forma não de os destruir, mas de ultrapassá-los custasse o que custasse.
Portanto é assim que te agradeço. Com toda a simplicidade, mas com todo o meu coração e alma também. Agradeço-te pelas lágrimas que me orgulho de saber conter, pelos sorrisos que aprendi a dar, pela reserva mas também solidariedade que impuseste no meu coração.
Mas acima de tudo, agradeço-te por esse amor. Esse amor tão furtivo e tão puro que me preenche o espírito de cada vez que em nele penso.


12.02.2011

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O Meu Primeiro Amor Maternal

    Estava tudo a correr correctamente. Eu estava a fazer o meu caminho, e estava a fazê-lo com êxito; apesar de levar apenas uma dúzia de anos comigo.              
    Após um dia nesse tão pensado caminho, algo banal mas que trouxe consigo algo surpreendente, aconteceu. Um telefonema. Bastou apenas e só um telefonema para que todo o meu ser adopta-se uma nova vaga de sentimentos. Um telefonema da minha irmã, que após alguns segundos ditou algo tão simples como:
    - Parabéns, tia. Estou grávida, Mariana. – Oh, sim. Era difícil assimilar a ideia; E é engraçado como todo o mundo girou e dei tanta importância àquele pequeno momento. Àquele pequeno grande momento, que era o início de algo tão grande.
    O tempo passou, e consigo os meses foram contados. A primeira vez que ouvi o bater de um coração e senti o fugaz mas poderoso movimento da pequena menina dentro do ventre da minha irmã, foram momentos memoráveis.
    Quando nasceu, este ser tão espantoso, uma nova luz dentro de mim foi criada; uma luz que até hoje me acompanha com  toda a sua imensidão. É difícil descrever a alegria constante que me seguia, e como todo o meu peito se enchia de amor sempre que olhava para aquele rosto angelical. Difícil de descrever os sentimentos que algo tão natural – mas tão belo – como um nascimento podia provocar em mim – uma simples menina de doze anos.
    A tarefa de ser madrinha só veio a acrescentar esses sentimentos, e o orgulho que sinto e me acompanha constantemente, não se compara a qualquer outro.
   A ligação criada nunca mais poderia ser quebrada.
    Sempre que ouvia simples vocábulos como ‘madrinha’, ‘olá’ ou ‘Mariana’, ditos pela sua forma tão especial e característica, sempre que ela me dava por livre vontade um sinal de carinho como um abraço, um sorriso, uma gargalhada ou um beijinho e mostrava como gostava de estar ao meu cuidado, o balão dentro de mim crescia mais e mais. Oh, mas quão diferente era este balão: tinha, e tem, o poder de nem diminuir ou rebentar.

   É verdade, sim, que todos os momentos eram como uma felicidade constante, mas os efeitos contrários também poderiam ser levados a cabo numa situação tão sentimental. Quase difícil de compreender. Logo, a ausência podia ser literalmente desastrosa, e transmitia-se como um desespero imenso. Foi com a sua emigração que estes sentimentos se apoderaram de mim. Foi como uma primeira amostra de algo do mundo adulto, que eu ainda não sabia como gerir. Sentia falta de cada momento, e as lágrimas, a dor, a saudade… Pareciam não ter fim. Sentia falta de a ter no meu abraço, de ler, brincar ou acarinhá-la. De gastar todo e quanto tempo podia na presença daquela criatura que tinha tão grande influência em mim. Uma influência como nunca antes ninguém tinha conseguido atingir, e que eu tinha a certeza que mais ninguém conseguiria. Pelo menos da mesma forma.

    Ela era a minha pequenina, a minha delicada e belíssima flor; o meu primeiro amor, digamos, maternal.


Escrito em 05.10.2009
Editado em 07.12.2010

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Momento.

E era uma vez um momento.
Uma hora, uma data, um local.
Uma acção, uma pessoa, um desejo.
Um momento por que se anseia em aceder.
Poder remar de volta à partida, poder fazer a seta voltar, poder calar as palavras ditas.
Mas mais do que reter acções, voltar atrás para as poder praticar.
Para em vez de fazer a seta voltar, não se arrepender por não a ter lançado.
Em de remar de volta à partida, poder começar algo.
Em vez de calar as palavras, poder saber o que iria acontecer se as dissesse.
Se o fizesse.

E era uma vez um momento.
Um momento de sabor, paixão e emoção.
Com proezas acabadas e canções cantadas.
Com saltos dados, e com frases escritas.
Com sorrisos prometidos e abraços devidos.
Com trocas, com surpresas e certezas.

E era uma vez um momento.
Sem arrependimentos e injustiças.
Um momento sem amarguras.
Sem tímidos olhares e sem meios sorrisos.
Sem virar costas e sem pseudo-apoios.
Sem falsidades e improfundidades.

E era uma vez um momento.
Um momento feliz para sempre.
Um momento perfeito.

Mas um momento inumano.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Saudade

é a perda repentina
e a ansiedade permanente;

É a essência do sorriso
perdida no olhar,

e a consciência da realidade
escondida na verdade;

É o poder e não poder,
o sonhar e não sonhar,
com o encontrar e desencontrar.



Mariana Antero - 25.05.2008

domingo, 7 de novembro de 2010

O Imperfeito

Não sabia como começar um blog. Deveria ou não escrever introdução? Um desabafo ou um texto criativo? Seja como for, o texto que se segue foi escrito em 5 minutos, num surto de vontade para escrever que tive há uns dias. Não é suposto ser triste, mas sim algo verdadeiro, com que todos nos confrontamos na vida.


O vento alterna conforme lhe apetece, desenhando formas invisíveis no ar que contagiam o que está à sua volta. Os cabelos mais suaves voam como se tivessem vontade própria, as copas dos carvalhos abanam elegantemente e os resquícios de água que se encontram por toda a parte adquirem formas inquietantemente belas. Faz parte da magia do Universo.
A mesma magia que tanto oferece como retira. A mesma magia que é capaz de formar as mais apaixonantes emoções, como as mais tenebrosas. Aquela magia que nos faz sentir no topo de uma pirâmide altíssima, mas que de repente nos atira para o poço mais profundo.
A magia da vida. Do ser. Do perfeito e imperfeito.
E como obra do oferecer e retirar, por vezes esta magia erra e retira-nos o que de mais precioso existe; o que de mais precioso temos. Aquilo que desejamos nunca perder, e pelo qual mais lutamos para manter. Aquilo a que damos tantas forças quanto as que podemos, a que dedicamos tempo possível e impossível, a que mostramos o nosso verdadeiro ser e estar. Aquilo que, apesar de querermos controlar para termos sempre debaixo do nosso amparo, acaba por não ser nosso e se deixa levar tão facilmente, com a mesma elegância das copas dos carvalhos.
E é depois disso que as emoções mais tenebrosas vêm ao de cima. É depois disso que damos por nós no mais profundo dos poços, sem conseguir encontrar o caminho de saída. Aliás, sem querer. Porque nesse lugar podemos fechar os olhos e respirar. Porque nesse lugar, sendo tudo escuro, também tudo é fácil de compreender; sim, porque chegando ao cimo, os nossos olhos abrir-se-ão a toda a luz que puderem, mesmo que não sejamos capazes de a assimilar. E aí, a dor regressará exactamente com a mesma suavidade dos cabelos que agem como se tivessem vontade própria.
Suavidade, que confrontada com a realidade, adquirirá tal peso que teremos de nos esforçar para tentar mostrar como este não nos afecta. Como somos fortes e conseguimos ultrapassar os obstáculos. Como temos uma mente limpa que não se contorce pelas dificuldades. Para tentar mostrar que podemos ser perfeitos, mas falhando. Porque a ilusão nunca, NUNCA é o melhor caminho. Aceitar sim. Aceitar será.
Mas a verdade, é que partir até pode ser fácil. Tranquilo. Libertador.
Mas e os que ficam para trás? Aí sim, pesa. E muito.